Interpretação de Gênesis 3



Interpretação de Gênesis

Interpretação de Gênesis 43



Interpretação de Gênesis 3
B. A Tentação e a Queda. 3:1-24.

GÊNESIS, 3, INTERPRETAÇÃO
O autor do Gênesis faz aqui uma lista dos passos que levaram à entrada do pecado nos corações daqueles indivíduos divinamente criados, que começaram suas vidas com corações tão puros e tantas promessas. A desobediência e o pecado obscureceram o quadro. Embora estes seres fossem moralmente honestos, receberam o poder da escolha; e estavam sujeitos ao poder do tentador a qualquer momento. Por isso o teste foi inevitável. O jardim era uma criação primorosa, cheia de provisões abundantes. O meio ambiente do homem nada deixava a desejar. Uma proibição, contudo, fora feita ao homem e à mulher. Todas as árvores, arbustos e guloseimas seriam deles, com exceção do fruto da "árvore do conhecimento do bem e do mal". Esta proibição parece que formou a atmosfera na qual as mentes humanas acolheram o apelo do tentador.
1. A serpente (neiheish). A narrativa apresenta o sedutor como um dos animais, que era muito mais sagaz do que os outros. A palavra hebraica contém a idéia de astúcia excepcional. (As lendas rabínicas dizem que a serpente andava ereta.) Ela tinha o poder de falar e falava livremente com sua vítima. Ela era ardilosa, insidiosa, maliciosa. Mais tarde a exegese identificará a serpente com Satanás ou o diabo. À luz de verdades bíblicas posteriores, estamos justificados em concluir que a serpente foi um instrumento especialmente escolhido por Satanás para este teste.
Em Ap. 12:9 o tentador é chamado de "o grande dragão, a velha serpente, chamada o diabo e Satanás" (cons. Milton, Paradise Lost, Livro IX). A palavra neiheish, que significa sibilante, sem dúvida se refere à espécie de ser que conhecemos como a serpente. Paulo declara que Satanás mascara-se de "anjo de luz" (II Co. 11:14). Ele escolheu o animal mais malicioso, mais sutil, mais cauteloso e controlou-o inteiramente para executar sua tarefa desastrosa. Jesus disse referindo-se a Satanás: "É mentiroso, e pai da mentira" (Jo. 8:44, cons. Rm. 16:20; II Co. 11:3; I Tm. 2:14; Ap. 20: 2).
O método de engano que a serpente usou com Eva foi o de distorcer o significado da proibição de Deus e então ridicularizá-la em sua nova forma. O tentador fingiu surpresa diante de tal ordem vinda de Deus. Então procurou abalar a fé da mulher semeando em sua mente dúvidas, suspeitas e falsos quadros do Todo-poderoso e seus motivos. Foi uma tentativa deliberada de desacreditar a Deus. Quando a fé falha, o firme fundamento da conduta moral entra em colapso. Só falta um pequenino passo da incredulidade para o pecado e a desgraça.
2:3. Respondeu-lhe a mulher. Conversar com o tentador sempre é perigoso. Inconsciente, a mulher estava revelando um desejo de entrar num acordo com o tentador. Ela não tinha a vantagem das palavras usadas por Jesus em Mt. 4:10 e a advertência de Tg. 4:7. Ela era inocente, ingênua e confiante; não servia de parceiro para o ardiloso antagonista. Ela não quis ficar de lado e ver Deus sendo deturpado; então tentou corajosamente corrigir a declaração da serpente. Mas citou a proibição de Deus de maneira errada, acrescentando a palavra tocareis.
5. Como Deus, sereis. Agora que Eva entrara na conversa, o sedutor avançou com seu argumento mais poderoso. Mais do que depressa ele deu a entender que o grande desejo do homem de ser igual a Deus foi deliberadamente frustrado por ordem divina. Ele acusou o Criador de egoísmo e falsidade maliciosa, apresentando-O como se tivesse inveja e não desejasse que Suas criaturas tivessem algo que as tornasse iguais ao Onisciente. (A palavra 'Elohim pode ser traduzida para Deus ou deuses, uma vez que se encontra no plural. A primeira forma é a preferida.)
6. Vendo a mulher... tomou... comeu, e deu. Os fortes verbos contam a história de maneira viva e clara. Algo aconteceu no raciocínio da mulher. Gradualmente o fruto tomou novo significado. Era atraente aos olhos, de bom paladar, e poderoso para conceder nova sabedoria. Ela deu mais um passo no campo da auto-decepção. Além de querer provar o alimento que era delicioso e atraente, queria também o poder. Ela cria que este fruto poderia satisfazer todos os seus desejos. O próximo passo foi automático e imediato. Tomou... comeu. O tentador já não era mais necessário a partir desse momento. Eva assumiu a tarefa de apresentar o bem recomendado fruto a seu marido, e ele comeu.
7. Abriram-se... os olhos (peikah)... percebendo. A palavra peikah descreve um súbito milagre. A promessa do tentador cumpriu-se imediatamente; receberam percepção instantânea. Viram e perceberam. Mas o que viram foi muito diferente do quadro colorido pintado pela serpente. Houve um rude despertar da consciência. Viram a sua nudez, espiritual e física. Nasceu a vergonha e o medo. Quando Adão e Eva perceberam que tinham perdido o contato com Deus, uma terrível solidão apossou-se deles. Seguiram-se o remorso e suas inevitáveis misérias. Sua falta de fé sujeitou-os a todos infortúnios resultantes. Apressadamente fizeram para si cintas ou aventais para fornecer algum tipo de ocultamento, segundo seu parecer, para o seu medo, solidão e complexo de culpa.
8. A voz do Senhor Deus... pela viração do dia. (Kol, "voz" é, lit., som; lerûah, "viração", é vento ou brisa.) Podiam esconder-se de Deus, mas não podiam escapar dEle. O amoroso Criador não passaria por cima de sua desobediência, nem abandonaria pecadores trêmulos dentro de sua pungente necessidade. Eles eram Seus. Sua santidade tinha de vir revestida de amor, para buscá-los, encontrá-los e julgá-los. Comumente a aproximação de Deus lhes trazia alegria. Agora, terror e pavor os paralisaram, embora o Senhor não se aproximasse deles com trovões nem os chamasse asperamente.
9. É fácil imaginar-se a doçura da voz divina, quando ecoou através das árvores, na quietude da tarde, chamando: "Onde estás?" É claro que Deus sabia onde estavam o homem e a mulher. Mas apelava para eles, procurando com ternura e amor obter uma reação favorável. E procurou levar os transgressores gentilmente até a plena convicção dos seus pecados. Embora a Justiça estivesse ditando o procedimento, a Misericórdia eram quem dirigia. O Juiz daria a decisão e pronunciaria a sentença.
12. A mulher... me deu da árvore, e eu comi. As perguntas divinas foram diretas e incomumente específicas. Em vez de confessar abertamente, rogando por misericórdia, Adão e Eva começaram a apresentar desculpas, passando a responsabilidade de um para o outro. O homem um tanto temerariamente jogou parte da culpa sobre Deus - que (tu) me deste.
13. A mulher, recusando assumir a responsabilidade, jogou-a toda sobre a serpente. A serpente não tinha modos de passá-la adiante. Enganou (hish-shiani). O verbo carrega a idéia de engano (cons. o uso que Paulo faz do conceito em II Co. 11:3 ; I Tm. 2:14).
14. Maldita ('eirur) és. O Senhor destacou a origem e a instigação da tentação para condenação e degradação incomuns. Daquele momento em diante passou a rastejar no pó e até alimentar-se dele. Rastejaria pela vida afora na desgraça, e o ódio seria a sua porção vindo de todas as direções. Muitos a considerariam para sempre como o símbolo da degradação daquele que tinha injuriado a Deus (cons. Is. 65:25). Além de representar a raça da serpente, também representaria o poder do reino do mal. Enquanto houvesse vida, os homens a odiariam e procurariam destruí-la.
15. Porei inimizade. A palavra 'ebé indica a inimizade feudal profundamente enraizada no coração do homem (cons. Nm. 35:19, 20; Ez. 25:15-17; 35:5, 6). Tu lhe ferirás (shup). Profecia de luta contínua entre os descendentes da mulher e os da serpente para se destruírem mutuamente. O verbo shup é raro (cons. Jó 9:17; Sl. 139:11). É o mesmo em ambas as cláusulas. Quando traduzido para esmagar, parece apropriado para a referência relativa à cabeça da serpente, mas não tão exato ao descrever o ataque da Serpente ao calcanhar do homem. Também foi traduzido para espreitar, mirar ou (LXX) vigiar. A Vulgata o traduz para conteret, "ferir", no primeiro exemplo, e insidiaberis, "espreitar" na segunda cláusula. Assim, temos nesta famosa passagem, chamada protevangelium, "primeiro evangelho", o anúncio de uma luta prolongada, antagonismo perpétuo, feridas de ambos os lados, e vitória final para a semente da mulher. A promessa de Deus de que a cabeça da serpente seria esmagada apontava para a vinda do Messias e a vitória garantida. Esta certeza entrou pelos ouvidos das primeiras criaturas de Deus como uma bendita esperança de redenção. Uma tradução infeliz da Vulgata muda o pronome lhe (dele, v. 15c) para o feminino, fornecendo apoio espúrio para as reivindicações infundadas relativas à "Bendita Virgem Maria".
16. E à mulher disse. Para a mulher, Deus predisse sujeição ao homem, e sofrimento. Gravidez e parto seriam acompanhadas de dores. A palavra 'asvon descreve dores físicas e mentais. Eva realizaria seus anseios e desejos femininos, mas não sem agonia. Em outras palavras, como esposa e mãe, estaria sujeita à disciplina de Jeová. O amor da mulher e o governo masculino, ambos estão apresentados na viva descrição. Não podemos compreender inteiramente a natureza de tais juízos do Senhor.
17. E a Adão disse. Dificuldades físicas, labuta árdua, aborrecimentos frustrantes e luta violenta foram concedidas por quinhão ao homem, que foi definitivamente julgado pecador culpado. Antes disso a terra produzia facilmente e livremente para o homem, com grande abundância. Adão tinha, antes, apenas de "cultivar" o jardim (2:15) a fim de desfrutar de sua abundante produção. Mas agora Deus pronunciou uma maldição especial sobre o solo. Dali para frente produziria suas colheitas com relutância. O homem teria de trabalhar muito cultivando o solo a fira de que produzisse o necessário para a vida. E ele teria de lutar com espinhos e ervas daninhas que antes não se destacavam. Trabalho enfadonho, dificuldades e canseira seriam o seu quinhão diário. Para Adão, como também para Eva, o pecado cobrou pesado tributo.
20. Eva (hauuâ). A palavra hebraica relaciona-se com a vida, e o verbo ao qual está ligada fala da vida. Toda a vida originou-se da primeira mulher. Ela foi a mãe de todas as pessoas e, portanto, a mãe de cada clã e cada povo. De acordo com o propósito divino, a vida deve continuar, ainda que a sentença de morte tenha sido declarada – e ao pó tornarás (v. 19).
22-24a. O Senhor...o lançou (geirash) fora. Um ato necessário e misericordioso. O Senhor não permitiria que o homem rebelde tivesse acesso à árvore da vida. Com cuidado amoroso afastou Adão e Eva do fruto que os tomariam imortais, perpetuando assim, a terrível condição para a qual o pecado os levara. Do agradável jardim foram expulsos para o deserto inamistoso.
24b. Querubins... e o refulgir de uma espada. Rashi, o intérprete hebreu, declarou que esses instrumentos foram "anjos da destruição", com o propósito de destruir qualquer um que procurasse entrar. A palavra hebraica kerubim indica figuras divinamente formadas para servirem como mensageiros da divindade ou como guardiões especiais das coisas sagradas. Em um exemplo eles são mostrados sustentando o trono sobre o qual Deus está assentado. Em outro, foram usados para descrever a terrível inacessibilidade de Jeová. Em geral, sua função parece ser a de guardar a sagrada habitação de Deus contra a usurpação e a contaminação. A árvore da vida estava perfeitamente segura com os querubins a guardá-la no portão. E o homem pecador estava perfeitamente seguro do perigo que adviria se não tivesse o majestoso protetor.
24c. O refulgir de uma espada que se revolvia (mithhapeket). O caminho de volta ao Éden estava guardado não só pelos querubins mas também por uma espada refulgente que se revolvia. Isso servia de garantia de que o homem não tentaria se aproximar da árvore da vida. Embora o paraíso do homem lhe fosse fechado por causa do pecado, Jeová não se esqueceu de Suas criaturas. Ele já fizera provisões para a sua triunfante volta.

Interpretação de Gênesis 3 Interpretação de Gênesis 3 Reviewed by Biblioteca Bíblia on segunda-feira, abril 20, 2015 Rating: 5
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