ECHTHRA [Inimizade] — Obras da Carne

FARMAKEIA, GREGO, NOVO TESTAMENTO
ECHTHRA B, ARC, ARA, Mar.: Inimizades; BJ, P, BV: ódio; BLH; as pessoas ficam inimigas; M: brigas. Outras traduções de outras ocorrências da palavra: RSV: hostil ou hostilidade (Rm 8.7; Ef 2.14, 16). M: inimizade tradicional entre famílias (Ef 2.16); W: inimizade mútua (Ef 2.16); P. elementos conflitantes (Ef 2.14).

Não é necessário gastar muito tempo discutindo o significado de echthra; echthros é a palavra grega normal para um inimigo, e echthra, para a inimizade.

No próprio NT, ocorre somente em duas outras passagens. Em Rm 8.7 Paulo escreve que a mente que se fixa na carne é hostil a Deus, ou, conforme diz NEB: “O ponto de vista da natureza inferior é inimizade contra Deus.” Em Ef 2.14, 16 é usada para a parede divisória de hostilidade que faz separação entre o judeu e o gentio até que ambos se tornem um só em Jesus Cristo.

No mundo antigo havia três tipos de inimizade, e estas continuam sendo reproduzidas na vida humana.

i. Havia inimizade entre uma classe e outra dentro da mesma cidade do mesmo país. Platão disse que em cada cidade havia uma guerra civil entre os que possuem e os que não possuem. Pode haver em qualquer comunidade uma guerra de classes que as pessoas de disposição maligna podem facilmente fomentar visando atingir seus propósitos pessoais maldosos.

ii. Havia a inimizade entre os gregos e os bárbaros. Esta, disse Platão, era uma guerra que não conhecia fim; e Isócrates implorava que Homero nunca fosse omitido do currículo educacional do jovem grego, porque Homero demonstra a separação eterna entre o grego e o bárbaro. Para os gregos, havia num sentido literal uma diferença entre os gregos e os bárbaros. “Havia,” escreve T. R. Glover, “alguma diferença natural entre os gregos e os bárbaros. Não se podia ir contra a Natureza; e a Natureza planejara dois tipos distintos do homem — o grego e o não-grego — e a diferença era fundamental” (T. R. Glover: Springs of Hellas, pág. 32).

Deve ser notado quão essencialmente arrogante era esta distinção grega. Como, perguntava insistentemente Ctésias, o historiador antigo, homens que só sabiam latir chegariam a governar o mundo? Ora, este teste do idioma grego relegava nações altamente civilizadas, tais como o Egito, a Fenícia, a Pérsia, a Lídia tão próspera, à categoria de bárbaras. Aristóteles pensava que o próprio clima do mundo mantinha esta diferença. Aqueles que habitavam no noite, nos países frios, tinham bastante coragem e ânimo, mas pouca perícia e inteligência; aqueles que habitavam no sul, na Ásia Menor, conforme o nome que agora damos à região, tinham bastante perícia, inteligência e cultura, mas pouco ânimo ou coragem. Somente os gregos viviam num clima projetado pela Natureza para produzir o caráter perfeitamente equilibrado e harmonizado (Aristóteles; Política 7.7.2).

Para os gregos, estes “bárbaros” eram por natureza escravos, e era perfeitamente correto para um grego superior reduzi-los à escravidão, comprá-los e vendê-los. Esta atitude para com o não-grego ressaltava-se vividamente num adjetivo que Plutarco aplica a Heródoto, o historiador antigo. Heródoto tinha uma curiosidade insaciável, e poderíamos dizer que era de alcance mundial. Para eles, grandes façanhas permaneciam grandes façanhas, quer realizadas por um grego, quer não. Era, conforme J. L. Myres escreve a respeito dele em The Oxford Classical Dictionary: “isento do preconceito e intolerância raciais”. E o resultado é que Plutarco rotula-o com a palavra philobárbaros, amigo dos bárbaros, como se a palavra fosse uma condenação (Plutarco: De Mal. Her. 857 A).

É de relevância que dois dos lugares onde ocorre a palavra echthra (Ef 2.14, 16) referem-se ao relacionamento no mundo antigo entre judeus e gentios. Havia realmente uma parede de hostilidade, uma inimizade tradicional antiga, entre judeus e gentios. Era uma ojeriza que existia em ambas as partes. Os romanos podiam falar da religião judaica como sendo superstição bárbara (Cícero: Pro Flacco 28), e do povo judaico como o mais vil dos povos (Tácito: Histórias 5.8). Na mesma passagem, Tácito diz a respeito dos judeus que têm uma lealdade inabalável uns aos outros, mas um ódio hostil a todos os demais homens. Diodoro Sículo repete o ditado de que os judeus supõem que todos os judeus sejam inimigos (31.1.1.3). Apião declarou que os judeus juraram pelo Deus do céu, da terra e do mar que nunca demonstrariam boa vontade a qualquer homem de outra nação, e especialmente que nunca fariam isso com os gregos (Josefo: Contra Apião 1.34; 2.10). Por outro lado, os judeus consideravam os gentios impuros. Casar-se com um gentio era o mesmo que ter morrido. Nos seus momentos mais amargos, os judeus podiam considerar os gentios como animais imundos, odiados por Deus, e destinados a serem combustível para o fogo do inferno. O anti-semitismo não é nenhum fenômeno novo, e a exclusividade judaica faz parte da essência do judaísmo.

A cortina de ferro do preconceito racial e da amargura interracial não é coisa nova. O espírito que produz os motins raciais e a segregação das cores é tão antigo quanto a civilização — e desde o seu início é condenado pela ética e fé cristãs.

iii. Há a inimizade entre um homem e outro. Neste caso, é mais simples definir echthra em termos do seu antônimo. Echthra é o antônimo exato de ágape. Ágape, amor, a suprema virtude crista, é a atitude mental que nunca permitirá sentir amargura para com homem algum, e que nunca buscará outra coisa senão o sumo bem dos outros, independentemente de qual seja a atitude dos outros para com ela. Echthra é a atitude da mente e do coração que coloca as barreiras e que tira a espada; ágape é a atitude do coração e da mente que alarga o círculo, que estende a mão da amizade e que abre os braços do amor. A primeira é uma obra da carne; a outra é fruto do Espírito.


FONTE: Obras da Carne e o Fruto do Espírito de William Barclay.