Estudo sobre Hebreus 5

Estudo sobre Hebreus 5



As qualificações do sacerdote (5.1-10)

Agora o autor se propõe a discutir as qualificações do sumo sacerdote (v. 1-4). Ele acha que só duas são importantes para serem mencionadas: (a) que o sacerdote seja humano, escolhido dentre os homens (v. 1), e (b) que seja designado para seu posto por Deus (v. 4). Deus ordenou que o sacerdote seja um homem (não um anjo ou outro ser celestial) porque a função principal do sacerdote é representar os homens em questões relacionadas a Deus (v. 1) , isto é, ficar “do lado divino” dos homens (A. Nairne, The Epistle of Priesthood, 1913, p. 146). Somente o homem está sujeito à fraqueza (v. 2). Daí, somente o homem pode compreender a fraqueza humana de tal forma que saiba se compadecer dos que não têm conhecimento e se desviam (v. 2). Assim, somente quando o sacerdote é um homem pode o homem ter certeza de que ele é perfeitamente capacitado para se compadecer de sua fragilidade e assim representá-lo de forma adequada diante de Deus. [Observação: Nos dias do sacerdócio aaraônico, o sacerdote era constantemente lembrado de sua própria inadequabilidade moral (não inadequabilidade física, pois não podia ter nenhum defeito físico) pela necessidade de constantemente oferecer sacrifício por seus próprios pecados, bem como pelos pecados do povo (v. 3). A atenção nunca é chamada para essa parte da analogia quando aplicada a Cristo, pois, como o autor já afirmou, ele era sem pecado.] O verbo “compadecer-se” (v. 2) traduz um verbo (metriopathein) que descreve o meio-termo entre a indiferença e a hipersensibilidade. Entendido dessa forma, o sacerdote é alguém que não pode ser apático aos problemas de quem ele representa nem afetado muito facilmente por eles. Em outros contextos, no entanto, o verbo estava associado a tais ideias como magnanimidade e clemência. Assim, também possui os significados de condescendência, indulgência e generosidade, tornando-o quase sinônimo de comiseração ou solidariedade (gr. sympathein). Nesse sentido, o sacerdote é descrito como compassivo, uma característica que pertence à sua natureza (Spicq, Comm., v. II, p. 108-9). Observe que os sacrifícios a serem oferecidos são para pecados de ignorância e instabilidade (v. 1,2), e não para pecados intencionais (cf. Nm 15.22-31).

O sacerdote não deve ser somente humano, mas precisa ser ordenado por Deus (v. 4). Esse é um ofício tão importante que nenhum homem tem o direito de tomar a honra para si mesmo (v. 4) — somente Deus possui a prerrogativa da nomeação de sacerdotes. O precedente foi colocado quando Arão foi estabelecido no seu ofício.

Tendo chamado a atenção para as qualificações para o sacerdócio em geral, o autor agora as aplica especificamente a Cristo de maneira tal que mostra a natureza elaborada do seu estilo retórico. Ele trata essas qualificações sacerdotais em ordem invertida (v. 510). Em primeiro lugar, trata do chamado divino um tanto apressadamente. Há só a afirmação da nomeação divina como sumo sacerdote (v. 5), e a prova das Escrituras: Exatamente o mesmo que antes havia dito a Cristo “Tu és meu Filho” (SI 2.7; cf. Hb 1.5) agora disse a ele “Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque” (SI 110.4).

Em segundo lugar, o autor discute a humanidade do sacerdote, mas em muito mais detalhes, pois no seu pensamento é um tópico que requer destaque especial. Ele deseja mostrar muito claramente que Cristo foi verdadeiramente humano, que ele verdadeiramente sabia o que era sofrer como ser humano, que ele verdadeiramente aprendeu por meio da experiência o que significava a submissão total a Deus, de modo que, como resultado, ele tem total consciência dos nossos problemas e é totalmente capaz de se compadecer de nós nos problemas. O autor faz isso com uma linguagem incomparável no NT em termos de intensidade (v. 7,8). Durante os seus dias de vida na terra, Jesus... (v. 7) “não deve ser forçado a sugerir que o autor pensou que Jesus já não estava encarnado depois de sua morte e exaltação” (F. F. Bruce, “Hebrews”, Peake's Commentary on the Bible, rev., 1962, ad loc.). Não nos é dito o que Cristo pediu nas orações e súplicas que fez em alta voz (lit. “gritos”) e com lágrimas (v. 7), mas a linguagem sugere uma alusão ao Get-sêmani, ou a momentos parecidos aos registrados em Jo 12.27: “Pai, salva-me desta (lit. ”para fora desta”, ou “tira-me desta”) hora”. Pode-se deduzir, portanto, que era uma oração de libertação apresentada, não obstante, em submissão à vontade do Pai. E ele foi ouvido por causa da sua reverente submissão (v. 7). Aquele que poderia salvá-lo da (lit. “para fora da”) morte de fato livrou-o de dentro da morte por meio da ressurreição, embora não fosse o seu propósito impedi-lo de morrer.

Embora sendo Filho (v. 8): Cf. comentário de 1.2. Por meio da expressão ele aprendeu a obedecer por meio daquilo que sofreu, o autor está dizendo que ele, agora na esfera da humanidade, precisa, assim como precisam todos os “filhos” (cf. 12.7ss), aprender o que significa obedecer a Deus quando cercado de sofrimentos e tentações humanos. Se os seus sofrimentos e tentações foram genuínos (cf. o comentário ao final do cap. 4), então sua obediência poderia ser obtida somente por meio de lutas. Assim, a perfeição (v. 9) que ele atingiu deve necessariamente ser uma perfeição moral, cujos benefícios se estendem muito além de si mesmo para abraçar de maneira redentora todos os que por sua vez lhe obedecem (v. 9).

Com base nas palavras que o autor escolheu nessa seção, parece claro que ele tem a intenção de descrever esse “Filho de Deus” em contraste forte com o primeiro “filho de Deus” (Adão; cf. Lc 3.38), que, quando posto à prova, escolheu desobedecer à ordem divina em vez de se submeter a ela, e que, por consequência, se tornou a causa universal da morte, e não da vida (cf. Rm 5.18,19; cf. tb. Hb 10.4-10). Jesus, por outro lado, tendo obedecido completamente, tornou-se a fonte da salvação eterna (v. 9) — uma salvação mediada pela sua função de sumo sacerdote, segundo a ordem de Melquisedeque (v. 10).

ADVERTÊNCIA ACERCA DAS CONSEQUÊNCIAS FATAIS DA IMATURIDADE (5.11—6.20a)

A possibilidade de a imaturidade conduzir ao rompimento final com Cristo (5.11—6.8)

É o propósito do autor explorar profundamente agora o significado do sacerdócio de Cristo. Mas visto que essa parte do seu sermão (gr. logos, v. 11) é constituída de coisas difíceis de explicar àqueles que se tomaram lentos para aprender (v. 11) e infantis no seu entendimento do ensino da justiça (v. 13), ele se sente compelido a adiá-la até que primeiro os tenha tirado da sua letargia. Com base nisso, fica claro que o problema que Hebreus está tentando resolver é o da inatividade, da falta de perseverança, do embotamento e da imaturidade espiritual. E esse tipo de atitude, por insignificante que pareça, que se a pessoa insiste nela, lentamente, quase imperceptivelmente, se afasta e é conduzida finalmente a romper com Cristo. Como precaução contra esse tipo de tragédia, o autor insta seus leitores a que se exercitem (pelo exercício constante) para que estejam aptos a discernir tanto o bem quanto o mal (v. 14), que se engajem em exercícios morais, no desenvolvimento dos hábitos mentais pelos quais possam se tornar maduros (gr. “perfeitos”), i.e., aptos para ingerir alimento sólido — o significado do papel de Cristo como sacerdote, por exemplo — e assim já não precisem de leite, ou seja, dos princípios elementares da palavra de Deus (v. 12), ou o á-bê-cê da salvação (cf. 1 Co 2.1—3.2).